sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Vidas: Carlos Frederico Lecor (até 1815)

pormenor de óleo de Miguel Benzo, no Musue Histórico Nacional de Montevidéu. c. 1817-1818

O Tenente General CARLOS FREDERICO LECOR, primeiro filho de Luiz Pedro Lecor e D. Quitéria Luísa Marina Lecor nasceu a 6 de outubro de 1764, em Santos-o-Velho, Lisboa, na rua do Pé de Ferro. Muda-se para Faro com a sua família algures na década de 1770. Após os estudos iniciais, terá trabalhado como caixeiro na companhia do tio, assim como viajado pela Europa, mas preferiu alistar-se e jurar bandeiras, aos 29 anos, como soldado Pé de Castelo na Fortaleza de São João do Registo da Barra de Tavira, a 13 de outubro de 1793, frequentando a aula regimental de Tavira, tutelada pelo tenente coronel José Sande de Vasconcelos. A 17 de março do ano seguinte, já sargento, ou sargento cadete, é nomeado ajudante da Praça de Vila Nova de Portimão pelo Capitão General dos Algarves, que já havia patrocinado os seus três irmãos meses antes. A 2 de dezembro desse ano de 1794, troca com o 1.º tenente António Pimentel do Vabo e torna-se o 1.º tenente da 9.ª companhia do Regimento de Artilharia da Guarnição do Algarve, em Faro. Entre dezembro de 1795 e julho de 1796, serve num destacamento do seu regimento à nau Príncipe Real como 1.º tenente de artilharia. Terá beneficiado de baixa ao serviço a partir de junho de 1796. A 1 de março de 1797, é promovido a capitão da 8.ª companhia de artilharia da Legião de Tropas Ligeiras. Participa na campanha de 1801, a Guerra das Laranjas, na fronteira de Zibreira, próximo a Castelo Branco. A 13 de maio de 1802, é promovido a sargento mor de infantaria da Legião. Três anos depois, a 1 de agosto de 1805, é prom0vido a tenente coronel agregado, ajudante d’ordens do novo Vice Rei do Brasil, o marquês de Alorna. Apesar de Alorna não tomar posse do comando no Brasil, Carlos Frederico mantém o exercício junto a Alorna, agora Governador d’Armas do Alentejo. 

Castelo de Rodão
Vêm aí os Franceses!


É Lecor o oficial que identifica as forças francesas já bem dentro de Portugal, em Vila Velha de Ródão, a 21 de novembro de 1807, correndo a avisar o Secretário de Estado dos Negócios da Guerra, D. António de Araújo Azevedo, e o Príncipe Regente D. João, o que faz pela manhã de 23, em Lisboa. O seu relatório e posterior reconhecimento foi essencial para acautelar o embarque da corte. Mantém-se como ajudante d’ordens de Alorna, colaborando com a ocupação francesa, até que foge, por volta de 18 de abril de 1808 em direção à esquadra britânica do almirante Sir Sidney Smith, para tomar o exílio em Plymouth. Após a revolta e criação da Junta do Porto, o tenente coronel Lecor desembarca no Porto, com a incumbência de promover a formação do 2.º batalhão da Leal Legião Lusitana, que havia ajudado a criar em Plymouth e Londres. A 20 de novembro de 1808, porém, é promovido a coronel comandante do Regimento de Infantaria n.º 23, em Almeida. 


A 2 de fevereiro do ano seguinte, é feito comandante de brigada das unidades presentes na Beira Baixa, sediando-se primeiro em Idanha a Nova e depois em Castelo Branco. Participa na campanha de 1809, comandando a brigada constituída pelos Batalhões de Caçadores 3 e 4, a um momento, e 4 e 6, noutro, juntamente com o 2.º batalhão do Regimento de Infantaria n.º 9. Em fevereiro de 1809, a brigada Lecor, constituída pelos Regimentos de Infantaria n.º 12 e 13, fica posicionada na serra do Muradal, em 2.ª linha face ao comando do general Roberto Wilson na área de fronteira de Castelo Branco. No mês seguinte, Lecor leva a sua brigada para Castelo Branco, substituinto a brigada Wilson. 



Na campanha de 1810, a brigada Lecor, com a adição de um batalhão cada dos Regimentos de Milícias de Castelo Branco, Idanha e Covilhã, é subordinada ao general Rowland Hill, desembocando na batalha do Buçaco, a 27 de setembro de 1810, colocado em observação na Ponte de Mucela, na extrema da ala direita do exército aliado, onde não combate, retirando depois até aos primeiro dias de outubro para as linhas defensivas, em Alhandra, no extremo direito, junto ao rio Tejo. 

jardins do Palácio Episcopal de Castelo Branco.
A 5 de março de 1811, é nomeado comandante da brigada portuguesa da nova 7.ª Divisão anglo-portuguesa, mas em abril desse ano, antes da batalha de Fuentes de Honor, é nomeado comandante militar da área de Castelo Branco, com os regimentos de milícias da área. Dois meses depois, a 8 de maio, é promovido a brigadeiro. 


Ainda no mesmo exercício, reage com muito atino, sangue frio e respeito pelas ordens na incursão francesa de abril de 1812, do marechal Marmont, sobre a Guarda e Castelo Branco, reagindo com calma e sem baixas. 


Batalha de Nivelle (W. Heath)


Em março de 1813, nas vésperas do início da campanha desse ano, é novamente nomeado comandante da brigada portuguesa da 7.ª Divisão, tendo participado nas batalhas de Vitória e dos Pirinéus. A 10 de julho, é promovido a marechal de campo.  A 10 de novembro de 1813, é o comandante interino da 7.ª Divisão anglo-portuguesa na batalha de Nivelle, sendo assim o único general português em toda a Guerra Peninsular que comanda uma divisão dos dois exércitos. No início de dezembro, com a nomeação do general George Walker para o comando da divisão, retorna ao comando da agora 6.º Brigada, mas é logo nomeado comandante da Divisão Portuguesa. A 13 de dezembro desse ano, na batalha de S. Pierre, última parte da batalha do Nive, comanda a Divisão Portuguesa, nomeadamente a brigada do Algarve (Regimentos de Infantaria 2 e 14) no centro, ordenando até uma carga do 2.º batalhão do Regimento de Infantaria n.º 14, para desembaraçar o 1.º batalhão, de voltigeurs franceses que atacavam. É ferido sem gravidade. Comanda a divisão até ao fim da guerra, em abril de 1814, retornando a Portugal. É nomeado governador da praça de Elvas, em 28 de agosto de 1814. 

Passa, em 1815, com 51 anos, à Divisão de Voluntários Reais do Príncipe, como tenente general Comandante em Chefe, tendo sido o seu nome logo indicado na ordem de levantamento da grande unidade, enviada do governo do Rio de Janeiro, em dezembro de 1814.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

“Em hum dos dias do mes de Outubro...” (1809)

Lecor (por Bartolozzi)


“Em hum dos dias de Outubro” , como se lhe referem as testemunhas, não se lembrando do dia exacto, 1809, o coronel Carlos Frederico Lecor (ou ‘Licores’, como lhe chama o corregedor Manuel Gomes Ferreira Valente), ao ver recusadas cavalgaduras por parte do mestre-de-portas de Azambuja - puxa “da sua espada, insultando-o ao mesmo tempo de palavras”. De acordo com as informações que o corregedor recolhe das várias testemunhas, “chegou o referido Coronel (Licores) ao excesso de lhe dar huma bofetada”.

Tendo a queixa sido inicialmente feita pelo próprio coronel ‘Licores’, o corregedor Manuel Valente havia-se deslocado à vila de Azambuja, demitira o Mestre-de-Portas, Isidoro José Correia, e ouvira 31 testemunhas. Como resultado da sua inquirição, chegou à conclusão que, de facto, o coronel ‘Licores’ espetou uma 'galheta' ao Sr. Isidoro Correia, não sem antes o ameaçar bradando a espada no ar.

Azambuja
Vale como atenuante ao nosso amigo ‘Licores’ que as testemunhas referiram insistentemente que o Mestre-de-Portas tinha o irritante hábito de não mostrar qualquer respeito pelos vários oficiais do Exército que por ali passavam. Isto é, as poucas que viram algo ou se lembravam efectivamente de ter visto algo acontecer.

Para o coronel ‘Licores’, que comandava, à altura dos factos, uma brigada constituída pelos Batalhões de Caçadores n.º 4 e n.º 6, o resultado poderia ter sido pior, mas foi mau. Levou, através de D. Miguel Pereira Forjaz, uma "piçada" real, diretamente do Príncipe Regente Dom João, datada de 1 de Fevereiro de 1810:

Constando ao P.[ríncipe] R.[egente] N. Sr. por Devassa, a que mandara proceder sobre a representação de V. Me. contra o Mestre de Portas da Villa d’Azambuja, que tendo este justamente recusado dar as Cavalgaduras que V. Me. lhe pedira quando por ali transitou em Outubro do ano próximo precedente, visto que se lhe não mostrava titulo que autorizasse huma semelhante requisição, passara V.Me. ao excesso de puxar pela espada em acção de maltratar, insultando-o justamente de palavras injuriosas: He S.A.R. servido mandar estranhar a V.Me. hum tão desagradável e irregular procedimento, esperando que pª o futuro haja de conter-se nos limites da moderação e prudência que sempre devem regular as acções de hum official militar.

Nessa altura, a pressão francesa sobre as fronteiras portuguesas faz-se sentir cada vez mais. O espectro de uma terceira invasão, mais forte que qualquer uma das anteriores está na mente de todos. A batalha de Talavera e consequente retirada para Portugal estava ainda fresca de meses.
O trabalho do Marechal Beresford de reformar o Exército Português e enquadrá-lo nas tácticas e práticas britânicas tinha começado apenas há alguns meses e esse mesmo Exército carecia ainda de confiança e experiência de combate face aos temíveis Franceses que controlavam a Espanha de Sul a Norte.

Apesar do povo português pouco demonstrar no exterior, próprio da raça, o medo estava no ar, ainda que por vezes mascarado de indiferença. “Os Franceses vêm aí!” Os militares sabem-no melhor que ninguém, principalmente os colocados na fronteira, em contacto com cidades e vilas extremenhas.
Passará ainda pouco menos de um ano até uma batalha começar a alterar tudo isso – Buçaco, onde por cada britânico morre um português, nem mais nem menos. Fica assinada em sangue, suor e coragem a mais velha aliança da Europa.

Carlos Frederico Lecor seguiu o seu percurso de sucesso., terminando a guerra como marechal de campo (hoje, major general), por sinal o mais graduado oficial do Exército Português em operações em França, menos de 4 anos depois.

Isidoro José Correia foi readmitido ao serviço e pouco admirará que outro oficial tenha também perdido a paciência...

Não sabemos se o Corregedor da Comarca de Santarém, Manuel Gomes Ferreira Valente, alguma vez veio a saber escrever o nome ‘Lecor’, ou se se acomodou ao mais familiar ‘Licores’...

ORIGINALMENTE PUBLICADO Em Busca de Lecor (2008)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Lecor e a carga de Infantaria 14 em St. Pierre de Irube (13.12.1813)


William Heath, Attack on the road to Bayonne
Tendo lido numa postagem do blogue Lagos Militar, do João Centeno, que foi lançado um livro acerca do Regimento de Infantaria n.º 14 (Tavira), coordenado pelo Coronel Rui Moura, achei por bem renovar a minha ofensiva bloguista (há muito adiada) com a transcrição de uma carta do então Marechal de Campo Carlos Frederico Lecor (hoje em dia seria Major-General) ao Ajudante General Manuel de Brito Mozinho, acerca do papel do seu comando nos acontecimentos de 13 de Dezembro de 1813, o último dia da Batalha de Nive.

Defronte de Baiona, na França, e durante 5 dias as forças francesas atacaram o Exército Anglo-Português tanto na margem esquerda do rio Nive (de 9 a 12 de Dezembro), como na margem direita (a 13 do mesmo mês).


A Batalha de St. Pierre, como é particularmente conhecida a acção do dia 13, por acontecer junto a St. Pierre d'Irube, consistiu no ataque francês em 3 sítios defronte dos altos de Mouguerre, em frente a Baiona no lado direito do rio Nive (a oeste, em VilleFranche; ao centro defronte de Horlopo; e a leste, em Vieux Mouguerre). 


O dia foi particularmente sangrento porque as forças aliadas neste lado do rio - o Corpo de Rowland Hill, constituído pela 2.ª Divisão e pela Divisão Portuguesa, estavam isoladas do resto do Exército Aliado.
Apesar de Wellington ter enviado outras divisões, mal se apercebeu dos movimentos franceses, foram as duas divisões isoladas que resolveram o dia, com os seus próprios recursos.

A Divisão Portuguesa, na reserva, entrou em acção já de tarde, quase ao final da acão, com a sua Brigada do Algarve (Infantaria 2 e 14) de Hipólito da Costa, a preencher uma parte da frente, entre o 71.º e o 50.º Regimentos ingleses (Brigada Barnes, da 2.ª Divisão) que estava em perigo sério de ceder aos franceses.

A acção da Brigada do Algarve nesta zona foi vital para que a linha fosse mantida, e as acções de Infantaria 14 são particularizadas por Lecor, nomeadamente uma carga à baioneta feita pelo 2.º Batalhão do regimento para apoiar o 1.º Batalhão, que estava em apuros. A prova da intensidade destes combates foi que vários generais foram feridos na acção, nomeadamente o próprio Lecor.

Aqui fica então a carta:

Illmo. Senhor, 

Tenho a honra de remeter a V. S. para aprezentar ao Illmo. Exmº Sr. Marechal Marquez de Campo Mayor o Mappa dos mortos e feridos que a Divizão do meu commando teve na acção do dia 13 do corrente em frente de Bayona; tendo ao mesmo tempo a satisfação de poder assegurar a S. S. que a conducta dos Corpos que a compoem foi a mais bizarra, não podendo deixar com tudo de particularizar o 2.º Batalhão do Regimento n.º 14 pella brilhante carga que executou debaixo do meu immediato commando, atacando o inimigo à baioneta pª poder desembarassar o 1.º Batalhão do mesmo regimento quando se vio obrigado a seder o terreno para evitar de ser involvido por huma força supperior de Voltigeurs, que o atacárão, os quaes voltarão caras precipitadamente perdendo a pozição, e deixando em poder do 2.º Batalhão alguns prizioneiros. 

Meresse ser levado à prezença de S. Exª o modo distincto com q os Commandantes das duas Brigadas o Sr. Antº Hipolito Costa, e o Sr. J. Buchan prehencherão os seus deveres assim como a conducta dos Commandantes dos Corpos o Sr. Cor. Jorge de Avilez de n.º 2, o Sr. Cor. Luis Maria de n.º 10, o Major Rodrigo Vito Moreira [Rodrigo Vito Pereira] Comandante interino de n.º 14 o Ten. Cor. Hill de n.º 4, do Cap. Pamplona graduado em Major do Bat. de Cassadores n.º 10, e a do Ten. Cor. Tulloh Commandante da Artilharia, o qual depois de se ter comportado com a intelligência do costume foi ferido gravemente. 

Não devo deixar de rogar a V. S. queira por na prezença de S. Ex. que entre os bravos officiaes que ficarão no campo de honra o Capitão Urbano Xavier Henriques do Regimento n.º 14 que morreu à testa da sua Companhia era cazado, e que a sua infeliz viúva se faz credora da protecção de S. Ex. 

Os Srs. Brigadeiros Costa e Buchan me aprezentarão os nomes dos indeviduos que debaixo das suas vistas tiverão mais ocazião de se poderem destinguir, dos quaes remeto relação para conhecimento de V. Ex. 

Seria faltar ao meu dever se deixasse em esquecimento os nomes dos indeviduos que durante a acção, e dispozições para ela me assistirão como officiaes do estado mayor desta Divizão dando-me provas de entelligencia zello,e actividade pelo que tenho ahonra de os recomendar a S. Ex, sendo os seguintes = O Ten. de Cav. D. Gastão da Camera –Ajd. de Campo do Exmo. Gen. Hamilton. O Ten. Joze Ferrira da Cunha = meu Ajudante d’Ordens. O Ten. do Exército de S.M.B. Grifits. 

Além dos officiaes que constão das relações dadas pellos Srs. Commandantes de Brigada me foi recomendado no momento da acção o Alferes do Regimento n.º 14 António Lobo da Silva cujo Alferes se unio ao Batalhão de Cassadores com huma partida do mesmo Regimento. 

Deos guarde a V. Sª. Quartel de Moguerre, 16 de Dezembro de 1813 
Illmo. Sr. Manoel de Brito Mozinho 

P.S.: O Major Pereira commandava o 2.º Bat. do Regimento n.º 14 no momento em q mandei atacar à baioneta, e depois de ser ferido o major [Jacinto Alexandre] Travassos q com todo o valor foi ferido he q recahio o Commando do Regimento no dito Major Pereira. 

Carlos Frederico Lecor 
M. de C.

[AHM, 1.ª Divisão, 14.ª Secção, Caixa 243, n.º 7]

(Imagem acima, retirada da revista Highland Light Infantry Chronicle, Janeiro de 1914, p.40 e pode ser vista em http://books.google.pt/books?id=pCxtyaZr8ZQC)

ORIGINALMENTE PUBLICADO Em Busca de Lecor (2009)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

History of the Portuguese Campaign Medals: Roussillon (1793-1795)

Marechal de Campo Francisco de Magalhães Pizarro (1776-1819), 
wearing the golden Granade in the left arm.
Between 10 and 11 December of 1795, the Portuguese troops who took part in the Roussillon campaign arrived at the port of Lisbon, in Belém. After the separate peace negotiated between Spain and France, through the Treaty of Basel, signed July 22 that year - leaving Portugal out, our soldiers finally returned home. They were the Auxiliary Army to the Spanish Crown (Exército Auxiliador), five thousand men strong, infantry and artillery, commanded by Lieutenant General John Forbes, sent by Portugal to fight in Roussillon and Catalonia.

In the Quadros Navaes (1869), Joaquim Soares gives us a happy scene as always happens when soldiers return home. The Prince Regent D. John, who was at the time coming from Queluz to the Necessidades, knowing the arrival of some of the vessels to Lisbon, took the decision to embark on the pier of Belém to meet him. The next day, the prince made a point to watch from the balcony of the Palace of Belém, with his wife, Princess D. Carlota Joaquina, the landing of the brave. These, as steped back on home soil, began to form. Completing the scene, and as stated Joaquim Soares, "it was a tender scene to see why such a large crowd of people was in the place [...], and every street where the troops were to pass, to show their consolation in seeing restored relatives and friends to the country".

Brigadier Jorge Frederico Lecor (c. 1770-1822),
wearing a golden Piece, according to regulations,
but 'updated' to gold (Museum Quinta das Cruzes).
The Roussillon campaign, or War of the Pyrenees, as it was also known, was one of the conflicts of the First Coalition War call, which took place in various theaters between 1792 and 1797. The Portuguese participation in this conflict became inevitable in view of a remarkable event: the execution of king Louis XVI, in the place de la Concorde, at 10:20 on 21 January 1793. Although it has not opted for a direct participation, Portugal sent a force to aid Spain in the theater of Pyrenees, strong of 5000 men, the same as now returned.

Six days after these endearing scenes of the reception of Portuguese troops,  in the Queluz Palace, the first phaleristics insignia (ie, distinction) intended to commemorate the participation of Portuguese soldiers in a campaign was born

On 17 December 1795, the Prince Regent D. John signed two decrees on establishing the 'Granada' and the 'Peça', to reward both arms who fought in the Roussillon  and Catalonia fields; effectively the first 'medal' campaigns in the Armed Forces. Notwithstanding previous commemmorative pieces, these was the first to be designed to be used by the soldiers of all classes, from the generals to the enlisted.

The Granada, or Grenade, gold for officers, silver for cadets, in white silk for the sergeants and white wool for soldiers, was intended to be used embroidered on the right arm and consisted of a drawn grenade with the objective to distinguish all infantry who participated in the campaign. It was the same type of grenade that was always identified the grenadiers, traditionally the elite of the infantry regiments.

The Peça, or artillery Piece, silver for officers and cadets, white silk for the sergeants and wool of the same color to the squares, to use also embroidered on the right arm, rewarded turn all artillery soldiers. Despite the decree stipulating that the piece should be silver for all officers, we can see the image of Brigadier Jorge Frederico Lecor, which have been in the habit, official or otherwise, to use the emblem in gold, matching the gold used in the Granada from general officers of infantry.

So begins the history of Portuguese campaign medals, still in the eighteenth century, celebrating the exploits of Portuguese soldiers and they carried on distinction and honoured their symbols.


[1] SOARES, Joaquim Pedro Celestino (1869), Additamentos aos Quadros Navaes e epopéa Naval Portugueza (tomo IV), Lisboa: Imprensa Nacional - p.19.


Sources
ESTRELA, Paulo Jorge (2008), Ordens e Condecorações Portuguesas 1793-1824, Lisboa: Tribuna da História.
SOARES, Joaquim Pedro Celestino (1869), Additamentos aos Quadros Navaes e epopéa Naval Portugueza (tomo IV), Lisboa: Imprensa Nacional

Links

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Terramoto de 1755: testemunho de Jacome Ratton


«Entre os acontecimentos extraordinarios da minha vida naõ devo omittir a meus filhos o que passei na occasiaõ do memoravel terramoto de Lisboa, que teve lugar no 1.º de Novembro de 1755, pelas nove horas e meia da manhaã; e como fosse dia de Todos os Santos, tinha eu hido á Missa á Igreja do Carmo, cujo tecto era de abobeda de pedra, e derrubado matou muito povo que ali se achava, de cujo perigo escapei por ter hido mais cedo, e me achar na dita hora nas agoas furtadas das minhas casas, mostrando a hum comprador huma partida de papel, que nos tinha vindo avariado, e ali se tinha posto a enxugar. 

Ao sentir o primeiro abalo me occurreraõ muitas reflexoens tendentes a salvara minha vida, e naõ ficar sepultado debaixo das ruínas da propria casa, ou das visinhas, se descendo as escadas fugisse para a rua; mas tomei o partido de subir ao telhado, nas vistas de que abatendo a casa eu ficasse sempre superior ás ruinas. Ja quando eu tomei este expediente era tanta a poeira, que, á maneira do mais denso nevoeiro, impedia a vista, a duas braças de distancia; só passados alguns minutos, que a dita poeira se foi dissipando, he que eu pude ver o interior das casas visinhas, por terem cahido as paredes fronteiras, até aos primeiros andares, ficando os telhados apenas sustidos pelas paredes divisorias. 

Seus habitantes, alguns ainda em camisa, correndo expavoridos de huma a, outra parte imprecavaõ os auxilios do Ceo, e dos homens em seu soccorro. Á vista desta horrivel scena, me resolvi descer as escadas, e fugir para a rua, a fim de buscar alguma parte aonde me julgasse mais seguro. Ao descer as escadas encontrei meus Pais, que afflictos me buscavaõ nas ruínas de hum grande panno da chaminé que tinha cahido, e debaixo do qual me julgavaõ sepultado. Foi inexplicavel o nosso contentamento quando nos encontramos; mas eu sem perder tempo lhes pedi que me accompanhassem para o largo mais proximo, que era ao fundo da rua do Alecrim, e encontrando de passagem D. Maria Castre, nossa visinha, pouco mais ou menos da minha idade, que tambem fugia, a tomei pelo braço, e seguimos a rua dos Remulares por cima de entulhos, e muitos corpos mortos, até á beira-mar, aonde nos julgavamos mais seguros. 

Mas pouco depois de ali ter-mos chegado, assim como muita gente, se gritou que o mar vinha sahindo furiosamente dos seus limites: facto que presenciamos, e que redobrou o nosso pavor, obrigando-nos a retroceder pelo mesmo caminho, e a procurar, pela rua de S. Roque, o alto da Cotovia, entaõ obras do Conde da Tarouca, depois Patriarchal, e hoje Erario novo, aonde tambem vieraõ ter, por diversos caminhos, meus Pais, e os parentes da dita Senhora, todos na maior inquietaçaõ por naõ saberem huns dos outros, como aconteceo a immenso povo, que procurou aquelle sitio descampado, entaõ terras de paõ, desde o alto da rua de S. Bento até a travessa de Pombal e Cardaes de Jesus, havendo apenas algumas casas na rua. que vai desde o pateo do Tijolo, ou obras do Conde de Soure, até a fabrica da seda, que já existia, assim como tambem a casa de D. Rodrigo, actualmente lmprensa Regia, e o Convento dos Jesuitas, hoje Collegio dos Nobres. 

O descampado daquelle alto dava lugar a descobrir-se a cidade por todos os lados, a qual, logo que foi noite, apresentou á vista o mais horrivel espectaculo, das chamas que a devoravaõ cujo claraõ allumeava, como se fosse dia, naõ só a mesma cidade, mas todos os seus contornos, naõ se ouvindo senaõ chôros, lamentaçoens, e chóros entoando o Bemdito, Ladainhas, e Miserere. Por fortuna o ceo se conservava clar e sereno, e o terreno enxuto; por naõ ter até entaõ havido chuvas,. nem as haver por oito dias mais, o que deo occasiaõ a fazer cada hum os arranjos, que lhe permittiaõ as circunstancias.»


Recordaçoens de Jacome Ratton sobre occurrencias do seu tempo em Portugal de 1747 à 1810 - pp. 23-26 [https://books.google.pt/books?id=iHhPAAAAcAAJ]

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Forte de S. João do Registo da Barra de Tavira





O Forte de S. João do Registo da Barra de Tavira, também designado por Forte da Conceição, Forte de S. João Baptista ou simplesmente Forte de S. João, foi mandado construir em 1670 pelo então Conde de Val de Reys, Capitão General do Reino dos Algarves para proteger a passagem da barra de Tavira para a Ria Formosa, assim como tomar o registo de todas as embarcações que entravam e saiam. O Forte é basicamente uma estrela de 4 pontas, com baluartes nos ângulos, dois deles virados à Ria. A porta principal está virada para terra e tem placas indicando a construção inicial e a posterior reedificação por outro Conde de Val de Reys, D. Nuno de Mendonça e Moura, trineto do primeiro.

Como nos informa a ficha deste forte no sítio do IPPAR, com "o açoreamento da ria e o desvio da barra para nascente, a fortaleza da Conceição perdeu as suas funções militares", acabando o imóvel por cair em mãos privadas no primeiro quartel do século XX. Segundo apurei, o hotel que está lá hoje aproveitou bastante bem o espaço, não o descaracterizando por aí além, sendo avaliado por alguns turistas como um excelente Bed & Breakfast - já agora, deixo aqui a ligação.


Não vi o hotel por dentro, embora me roa a curiosidade. A porta estava ciosamente fechada, guardada e filmada. Quem sabe alguma alma caridosa me deixasse penetrar o reduto, mas confesso que o exterior me deixou satisfeito. Embora um viçoso arvoredo vista as muralhas viradas a terra, para Norte e Leste, as muralhas estão bastante visíveis nos outros lados, permitindo ver um forte extremamente bem preservado e bastante bonito, no seu estilo sóbrio do século XVII.

Este forte honra a belíssima zona que o envolve, junto a Cabanas de Tavira, à direita de Tavira, com a sempre fantástica Ria Formosa em frente. Antes de ir ao forte propriamente dito, não hesitei em passear à beira-Ria que estava a encher, num dia que, se nublado, não nega ao Algarve a sua luz de sempre, mais ainda reflectida pelo azul atlântico do mar salgado que se estende, parece, ao infinito.

Sem dúvida, um belo passeio que só me puxa a passear por todo santíssimo forte e fortaleza da costa algarvia. Deixo-vos com uma foto que tirei mesmo em frente à muralha sul, mostrando o cenário que Lecor veria todos os dias quando pegava ao serviço, durante o relativo curto espaço de tempo em que lá esteve, de Outubro de 1793 a Março de 1794.

TAVIRA: PATRIMÓNIO ARQUITETÓNICO: visite


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Lorenzo Caleppi, ou como o audaz Arcebispo de Nisibi enganou um dia Junot (1808)

Jorge Quinta-Nova


“O tempo na verdade era delicioso, e convidava a viajar; em huma bella manhã da Semana da Páscoa procurou-se o velho, e elle tinha abalado com os trastes. Com effeito teve a habilidade de transportar-se para Inglaterra, com quasi tudo o que lhe pertencia, em hum navio, que sahio licenciado por Junot.”

José Accursio das Neves, História Geral da invazão dos Francezes (1810), p. 222.

Assinatura do tratado de Tolentino, 1797
E assim partiu ‘à italiana’ o velho italiano Monsenhor Lorenzo Caleppi (1741-1817) da Lisboa ocupada de 1808, não sem antes escrever uma carta ao general Junot, agradecendo-lhe a simpatia, mas prometendo-lhe que “agitado pelos gritos da [sua] consciência” (1), deveria partir para o Brasil e cumprir o seu papel de Núncio Apostólico junto à corte legítima.

Após não ter conseguido embarcar na esquadra que levou os nossos melhores para o Brasil nos últimos dias de novembro de 1807, Monsenhor Caleppi ficou em Lisboa, único embaixador que o fez, e conspirou activamente com os ajudantes de ordens do Marquês de Alorna, o nosso Carlos Frederico Lecor e o major José Tomás Bocaciari (de triste destino, a falar aqui em breve), para que todos fugissem para a esquadra inglesa nas costas portuguesas. Os três não conseguiram convencer Alorna, já preso aos franceses, não sem remorsos (outra história!), mas por alturas da Páscoa, em torno do dia 18 de Abril, lá tomaram o caminho do exílio, recusando o jugo revolucionário. Caleppi escusou-se por carta a Junot, que estava doente e não poderia ir a uma festa, mas nessa mesma noite, vestido de pescador lá ia ele ao seu destino.

Lorenzo Caleppi

Ravena
Lorenzo Caleppi nasceu em Cervia (Ravenna, na costa adriática da Itália) em 29 de Abril de 1741, filho do Conde Nicola Caleppi e Luciana Salducci, e foi ordenado padre em 1772. Rapidamente, escalou a hierarquia do Vaticano, assumindo-se como um dos mais promissores diplomatas da Igreja. Em 22 de Fevereiro de 1797, esteve presente e assinou o Tratado de Tolentino [na foto ao início da postagem, Caleppi é o segundo a contar da esquerda], com que a Igreja capitulou de vez perante o Directório Francês e Napoleão.

Segundo na comitiva do Vaticano na negociação e assinatura do Tratado de Tolentino, atrás do Cardeal Alessandro Mattei, o próprio Napoleão, tendo-o conhecido na Itália uma vez (provavelmente durante as negociações ou a assinatura do tratado), observou que “toda a arte do mais subtil xeique turco era mera simplicidade comparada com a astúcia de Caleppi” (2). Ao assinar, numa ocasião, um tratado com Murat, Caleppi colocou um par de óculos escuros verdes, para que não se visse o seu semblante. Para Laura Junot, isso mostra o homem.

Em 23 de Fevereiro de 1801, é eleito Arcebispo de Nisibi, sendo consagrado na catedral de Frascati. Nomeado Núncio para Lisboa nos finais desse mesmo ano, chega a Lisboa no dia 22 de Maio de 1802.

Lisboa

Em 1805, Laura Junot conhece-o em Lisboa, por ocasião do breve consulado do seu marido na Corte, e diz dele que “a sua astúcia combinada com a sua extensa e profunda informação, tornava a sua companhia extremamente interessante”, e que “fazia tudo [...] com bom gosto, sem qualquer indício de servilismo”. (3)

Monsenhor Caleppi, como um dos dois únicos embaixadores remanescentes em Lisboa (o outro era o da Rússia, e que se reúne à Corte no Rio, penso que em 1812, por via dos Estados Unidos), e por sua própria inclinação política, tudo fez junto de variadas altas instâncias da sociedade portuguesa, para que fugissem para o exílio, mas com poucos resultados, acaba por escapar ele próprio, deixando o seu próprio n.º 2 na Nunciatura, Vincenzo Macchi, futuro cardeal, para ser posteriormente expulso por terra até aos Pirinéus. Caleppi leva com ele, pouco tempo depois, pelo menos o nosso herói Carlos Frederico Lecor e José Tomás Bocaciari, os ajudantes de ordens de Alorna.

Na sua carta a Junot, jogando o mesmo jogo cortês do comandante da ocupação estrangeira, Caleppi despede-se de Junot, trocando-lhe as voltas, decerto com um sorriso enquanto a ditava:

“A negação dos passaportes, para poder embarcar-me, soffrida pelo espaço de quatro mezes, os incommodos, e tudo quanto tenho supportado neste intervallo, sem os poder conseguir, me tem muitas vezes feito recear, que alguma calumnia tenha enganado a V. Excelencia, [...] sobre a minha pertenção. [...] Por felicidade minha V. Excelencia nestes ultimos dias me fez o maior obséquio, certificando-me repetidas vezes pela sua honra, que nada, absolutamente nada, havia contra a minha pessoa, e que a negação dos passaportes, para o meu embarque, era sómente huma medida, não devendo a França (me dizia V. Excelencia) facilitar aos Embaixadores meios de transportar-se a hum paiz, com quem estava em guerra.” (4)

Lá se foi Caleppi, com certeza desenhando na mente a cara do grande Junot, após brilhante saída de cena. Essa mesma saída de cena é fortemente ovacionada no Rio de Janeiro, quando o Núncio lá chegou, assumindo o seu papel enquanto embaixador da Santa Sé, o primeiro do novo mundo.

Convento de S. Antônio, RJ
Em 8 de Março de 1816, já com a guerra terminada na Europa, e uma prestes a decorrer no Rio da Prata (no comando, Carlos Frederico Lecor), Lorenzo Caleppi é criado Cardeal, embora nunca tenha recebido o solidéu vermelho. Dez meses depois, a 10 de Janeiro de 1817, um mês antes de Lecor conquistar Montevidéu, o Arcebispo de Nisibi falece com quase 76 anos de idade. Como sua última vontade, é sepultado no franciscano Convento de Santo Antônio [na foto], no Rio de Janeiro.

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(1) Carta de Lorenzo Caleppi a Junot, 18.4.1808, in: José Accursio das Neves, História Geral da invazão dos Francezes (1810), p. 222-227.
(2) Laura Junot (1832), Memoirs of the Duchess d’Abrantes, Vol. IV, London: Richard Bentlet, pp. 242-245 [minha tradução].
(3) Ibidem
(4) Carta de Lorenso Caleppi a Junot, 18.4.1808, op. cit.