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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

History of the Portuguese Campaign Medals: Roussillon (1793-1795)

Between 10 and 11 December of 1795, the Portuguese troops who took part in the Roussillon campaign arrived at the port of Lisbon, in Belém. After the separate peace negotiated between Spain and France, through the Treaty of Basel, signed July 22 that year - leaving Portugal out, our soldiers finally returned home. They were the Auxiliary Army to the Spanish Crown (Exército Auxiliador), five thousand men strong, infantry and artillery, commanded by Lieutenant General John Forbes, sent by Portugal to fight in Roussillon and Catalonia.

In the Quadros Navaes (1869), Joaquim Soares gives us a happy scene as always happens when soldiers return home. The Prince Regent D. John, who was at the time coming from Queluz to the Necessidades, knowing the arrival of some of the vessels to Lisbon, took the decision to embark on the pier of Belém to meet them. The next day, the prince made a point to watch from the balcony of the Palace of Belém, with his wife, Princess D. Carlota Joaquina, the landing of the brave. These, as steped back on home soil, began to form. Completing the scene, and as stated Joaquim Soares, "it was a tender scene to see why such a large crowd of people was in the place [...], and every street where the troops were to pass, to show their consolation in seeing restored relatives and friends to the country".

The Roussillon campaign, or War of the Pyrenees, as it was also known, was one of the conflicts of the First Coalition War call, which took place in various theaters between 1792 and 1797. The Portuguese participation in this conflict became inevitable in view of a remarkable event: the execution of king Louis XVI, in the place de la Concorde, at 10:20 on 21 January 1793. Although it has not opted for a direct participation, Portugal sent a force to aid Spain in the theater of Pyrenees, strong of 5000 men, the same as now returned.

Six days after these endearing scenes of the reception of Portuguese troops,  in the Queluz Palace, the first phaleristics insignia (ie, distinction) intended to commemorate the participation of Portuguese soldiers in a campaign was born

Marechal de Campo Francisco de Magalhães Pizarro (1776-1819), 
wearing the golden Granade in the left arm.

On 17 December 1795, the Prince Regent D. John signed two decrees on establishing the 'Granada' and the 'Peça', to reward both arms who fought in the Roussillon  and Catalonia fields; effectively the first 'medal' campaigns in the Armed Forces. Notwithstanding previous commemmorative pieces, these was the first to be designed to be used by the soldiers of all classes, from the generals to the enlisted.

The Granada, or Grenade, gold for officers, silver for cadets, in white silk for the sergeants and white wool for soldiers, was intended to be used embroidered on the right arm and consisted of a drawn grenade with the objective to distinguish all infantry who participated in the campaign. It was the same type of grenade that was always identified the grenadiers, traditionally the elite of the infantry regiments.


Brigadier Jorge Frederico Lecor (c. 1770-1822),
wearing a golden Piece, according to regulations,
but 'updated' to gold (Museum Quinta das Cruzes).
The Peça, or artillery Piece, silver for officers and cadets, white silk for the sergeants and wool of the same color to the squares, to use also embroidered on the right arm, rewarded turn all artillery soldiers. Despite the decree stipulating that the piece should be silver for all officers, we can see the image of Brigadier Jorge Frederico Lecor, which have been in the habit, official or otherwise, to use the emblem in gold, matching the gold used in the Granada from general officers of infantry.

So begins the history of Portuguese campaign medals, still in the eighteenth century, celebrating the exploits of Portuguese soldiers and they carried on distinction and honoured their symbols.


[1] SOARES, Joaquim Pedro Celestino (1869), Additamentos aos Quadros Navaes e epopéa Naval Portugueza (tomo IV), Lisboa: Imprensa Nacional - p.19.


* * *

Sources
ESTRELA, Paulo Jorge (2008), Ordens e Condecorações Portuguesas 1793-1824, Lisboa: Tribuna da História.
SOARES, Joaquim Pedro Celestino (1869), Additamentos aos Quadros Navaes e epopéa Naval Portugueza (tomo IV), Lisboa: Imprensa Nacional

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domingo, 31 de janeiro de 2016

O Apelo d'Armas (1793/1794)

uma família de Portugueses no início das Guerras Revolucionárias
Jorge Quinta-Nova

P: Como se chamão aquelles, q trazem espada para o serviço do Estado? 
R: Chamão-lhes gente de guerra, ou soldados.
Luiz Pedro Lecor, Lição XXX, das Leys Humanas. Educação de Meninos, 1746


Nos finais da década de 1780, uma mudança começava a fazer-se notar na sociedade portuguesa, fruto das convulsões políticas europeias, produto da onda de choque que foi a Revolução Americana.

É assim que, em 1787, mais por causa dos piratas do Norte de África do que propriamente da situação europeia, o Conde de Vale dos Reis, capitão-general dos Algarves, escreve uma carta à rainha D. Maria pedindo a construção de quartéis para o regimento de artilharia de Faro, ainda na sua maioria aboletado nas casas de cidadãos, desde que fora formado em 1776. Se esta carta é escrita a 27 de Novembro, logo a 1 de Dezembro, a vereação de Faro dá início a uma petição, recolhendo as assinaturas de quem estava nas Casas da Câmara, e depois indo às ruas chamar os que cidadãos que lá se achassem a assinar a importante petição. Entre as várias assinaturas, temos Carlos Frederico Krusse, ao topo, e Carlos Frederico Lecor e João Pedro Buys, mais para baixo.

O apelo do uniforme foi, porém, mais forte. O desejo de ser mais na vida que um comerciante, viajar pelo império, conhecer a India, o Brasil, Angola, ao invés de ficar preso a um escritório, contando metal e fazendo balanços. O espírito da época, romântico, idealista, liberal, a tudo isso encarreirava na alma do jovem Carlos e o inspirou a seguir a vida militar. 
Em menino, ficara-lhe a memória do rio Tejo e a vista da saída e chegada das naus. Em Faro, ao ir nadar à Ria, próximo ao Poço das Naus, o espírito inquisitivo de Carlos o fazia ficar observando as peças de artilharia de variados calibres armazenadas ali próximo, pondo à prática os cálculos aprendidos com os seus professores. No bom tempo, muito frequente no Algarve, as peças ficam cá fora, para que os artífices nelas pudessem trabalhar.

Regimento de Artilharia da Guarnição do Algarve

Faro, Novembro de 1793.
No ambiente de pequena cidade litoral de Faro, o regimento de Artilharia era uma absoluta novidade, tendo apenas sido formado em 1774. Começou por ser constituído por três companhias que vieram, desde logo, do extinto regimento de Artilharia de Lagos, a escassos 80 quilómetros de Faro. Depois vieram as restantes companhias do Porto e de outras guarnições, assim como o seu primeiro comandante, Diogo Ferrier. Não havia, nem nunca chegou a haver um quartel propriamente dito, mas edifícios alugados por toda a cidade, onde se tinha o material, os oficiais e artilheiros.

Na volta para casa, passando pela Praça da Rainha (Jardim Manuel Bívar, hoje), Carlos veria também com alguma frequência o Regimento de Milícias de Faro, treinando a marcha, com a banda tocando, marcando o passo. Com ele, os irmãos João, António, Jorge e o primo João Pedro, todos aproximando-se ansiosamente da idade militar, de correr e conhecer mundo, defender o império e a santa religião.


Os Sargentos Cadetes de Artilharia

Oficial subalterno, 1793
Regimento de Artilharia do Algarve
(ilust.: Bill Younghusband)
Na cavalaria e infantaria, desde 1757 que se aceitavam cadetes nos regimentos, tendo que fazer prova de nobreza. Na artilharia, porém, não havia este sistema, até porque era muito raro ter nobres portugueses a desejar servir nela. A artilharia, assim como a engenharia, era uma arma técnica que só teve, aliás, direito a uniforme, em meados do século. Apesar disso, o alvará de 16 de março de 1757, que criava os cadetes apenas para a infantaria e cavalaria era usado, por analogia, pela artilharia, confirmado oficialmente em 1767. A única diferença estava em que a artilharia não requeria prova de nobreza, mas, geralmente, jovens com boa formação e de famílias burguesas de algum respeito e envolvimento social, além do que estes cadetes tinham de estar nos números, ou quadros, das companhias.

Para a artilharia iam então muitos jovens filhos da burguesia mercantil urbana e a pequena nobreza rural de Lisboa, Porto, Faro e Estremoz, arautos castrenses do crescimento da classe média que apenas desta forma poderia obter o oficialato militar, a patente d’el-Rei. O seu percurso normal era assentar praça como soldado, e passar a cabo de esquadra, furriel e, finalmente, a sargento. Estivessem então em que unidade estivessem, pediam a passagem ao regimento de artilharia local e o reconhecimento como cadetes; nas folhas hoje guardadas pelo Arquivo Histórico Militar, aparecem designações como ‘sargento-cadete’ ou ‘cadete-sargento’, indicando-nos também que era fundamentalmente um termo oficioso. Sendo sargentos-cadetes, era apenas questão de esperar por uma vaga de 2.º tenente, o primeiro posto da carreira de oficial de artilharia. Mesmo assim, em situação de campanha, como no Roussilhão e Catalunha de 1794, cadetes chegaram a comandar batarias, como veremos mais adiante.



Irmãos de Armas


António Pedro e Jorge Frederico

Os dois irmãos mais novos, António Pedro, com 20 anos, e Jorge Frederico, com 18, assentam praça como voluntários e juram bandeiras primeiro, logo em 1788, no Regimento de Infantaria de Tavira, a trinta quilómetros de Faro. Com a sua educação, logo se vêem como sargentos-cadetes na artilharia de Faro, uma característica da artilharia portuguesa, não mais de um ano depois: Jorge a (10 de março de 1788), António a (10 de maio de 1788).


João Pedro

É já quando toda a França muda, mudando com ela a Europa, que os dois irmãos mais velhos decidem se alistar. João Pedro (1766-1844), nascido na rua de S. João da Matta, em Santos-o-Velho, foi primeiro. João, ao contrário dos dois irmãos mais novos, assentou praça diretamente em Faro, onde morava, no regimento de Artilharia do Algarve. Fê-lo a dezembro de 1792 ou janeiro de 1793. Menos de quatro meses depois, embarcavam os três para a Catalunha, apenas Carlos Frederico ficou, assentando praça de voluntário na Fortaleza da São João da Barra de Tavira, apenas um mês após os seus irmãos estarem já embarcados rumo à guerra.



terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

História da Medalha de Campanhas: Roussilhão (1793-1795)

Jorge Quinta-Nova


O Marechal de Campo Francisco de Magalhães Pizarro (1776-1819), 
usando a Granada de ouro no braço esquerdo.
Entre 10 e 11 de dezembro do longínquo ano de 1795, chegavam ao porto de Lisboa as tropas portuguesas que vinham de ter participado nas Campanhas do Roussilhão. Após a paz separada, negociada entre a Espanha e França, através do Tratado de Basileia, assinado a 22 de julho desse ano, e que deixou Portugal de fora, os nossos soldados voltavam finalmente a casa. Eram o Exército Auxiliar à Coroa de Espanha, forte  de cinco mil homens entre infantaria e artilharia, comandandos pelo tenente general John Forbes, enviados por Portugal no âmbito da Primeira Coligação.


Nos Quadros Navaes (1869), Joaquim Soares dá-nos o cenário de felicidade que sempre acontece quando os nossos soldados retornam à Pátria. O príncipe regente D. João, que vinha na altura de Queluz para as Necessidades, sabendo da chegada de algumas das embarcações a Lisboa, tomou a decisão de embarcar no cais de Belém ao seu encontro. No dia seguinte, o príncipe fez questão de assistir, da varanda do palácio de Belém, com sua esposa, a princesa D. Carlota Joaquina, ao desembarque dos bravos. Estes, à medida que tocavam de novo no solo pátrio, começavam a formar. Completando o cenário, e como refere Joaquim Soares, “offerecia um bem terna scena a grande multidão de gente que se achava no local […], e em todas as ruas por onde as Tropas devião passar, para mostrarem a sua consolação em ver restituidos ao Paiz os parentes e amigos” [1].


O Brigadeiro Jorge Frederico Lecor (c. 1770-1822),
usando a Peça no braço direito, de forma regulamentar,
mas em ouro (Museu Quinta das Cruzes).
A Campanha do Roussilhão, ou Guerra dos Pirinéus, como também ficou conhecida, foi um dos conflitos da chamada Guerra da Primeira Coligação, que decorreu em vários teatros, entre 1792 e 1797. A participação portuguesa neste conflito tornou-se inevitável, tendo em vista um acontecimento notável: a execução do rei Louis XVI, na atual praça da Concorde, às 10:20 do dia 21 de janeiro de 1793. Ainda que não tenha optado por uma participação direta, Portugal enviou uma força para auxiliar a Espanha no teatro dos Pirinéus, forte de 5000 homens, a mesma que agora retornava.

Seis dias depois destas enternecedoras cenas da receção das tropas portuguesas, nascem, no Palácio de Queluz, as primeiras insígnias falerísticas (i.e., de distinção) destinadas a comemorar a participação de soldados portugueses numa campanha. A 17 de dezembro, O Príncipe Regente D. João assina dois decretos em que estabelece a ‘Granada’ e a ’Peça’, para premiar os dois ramos que combateram nos campos do Roussilhão e na Catalunha; efetivamente a primeira ‘medalha’ de campanhas das Forças Armadas Portuguesas. Não desprezando outras peças de natureza falerística anterior (quiçá mais próximas da exonumia), estas foram as primeiras a ser criadas para serem usadas pelos soldados e, mais, por todas as classes, desde os mandantes aos praças.

A Granada, de ouro para oficiais, em prata para cadetes, em seda branca para os sargentos e em lã branca para os soldados, era destinada a ser usada bordada no braço direito e consistia do desenho de uma granada tendo por objetivo distinguir todos os militares de infantaria que participaram na campanha. Era o mesmo tipo de granada que sempre havia identificado os granadeiros, tradicionalmente a élite dos regimentos de infantaria portuguesa.

A Peça, de prata para os oficiais e cadetes,  de seda branca para os sargentos e de lã da mesma cor para os praças, para usar também bordada no braço direito, premiava por sua vez todos os militares de artilharia. Apesar do decreto estipular que a peça deveria ser de prata para todos os oficiais, podemos observar na imagem do brigadeiro Jorge Frederico Lecor, que terá havido o hábito, oficial ou não, de usar a insígnia em ouro, igualando o ouro usado na Granada dos oficiais de infantaria.

Começa assim a epopeia das medalhas de campanhas, ainda no século XVIII, comemorando os feitos dos soldados portugueses e por eles portadas em símbolos de distinção e honra.

[1] SOARES, Joaquim Pedro Celestino (1869), Additamentos aos Quadros Navaes e epopéa Naval Portugueza (tomo IV), Lisboa: Imprensa Nacional - p.19.

Fontes:
ESTRELA, Paulo Jorge (2008), Ordens e Condecorações Portuguesas 1793-1824, Lisboa: Tribuna da História.

Ligações:
“Distintivos honoríficos”, Blogue Talabarte, in: http://talabarte-marr.blogspot.pt/2011/04/exercito-auxiliar-espanha-1793-1795_17.html (com imagens dos dois decretos)