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sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

"Congress": Uma missão norte-americana na Prata

Apontamentos de Henry Marie Brackenridge acerca da sua estadia em Montevideu e o contacto que manteve com o comando militar português de 20 a 26 de Fevereiro de 1818.

Henry Marie Brackenridge (1820), Voyage to Buenos Ayres Performed in the years 1817 and 1818 by Order of the American Government, London.

Traduzido do inglês e Introdução por Jorge Quinta-Nova


Nos último dias de Fevereiro de 1818, pouco mais de um ano após a conquista de Montevidéu pelas forças portuguesas, Henry Brackenridge, secretário de uma missão norte-americana a Buenos Aires, viajando na Fragata "Congress", visitou o Quartel-general de Lecor, oferecendo-nos um testemunho interessantíssimo para perceber a dimensão física do estado maior português em Montevidéu, assim como o posicionamento político de alguns oficiais portugueses com quem Mr Brackenridge falou.


Fragata USS Congress, em 1857, quase 40 anos depois

“Dessa forma procedemos para os alojamentos do general português, que ocupam uma das maiores e melhores casas na cidade. Entrámos num pátio ou veranda espaçoso, com galerias a toda a volta, por uma guarda de tropas negras, com aspeto brilhante e gorduroso, vestidos com uniformes vistosos. Nestes países os negros são preferidos para guardas e sentinelas, perto dos oficiais de distinção.

Depois de passarmos por vários salas, cruzando-nos com sentinelas e oficiais de serviço, que exibiam perante nós a pompa e circunstância do estabelecimento de um grande chefe, entrámos numa sala onde fomos polidamente convidados a nos sentar.

Mal tivémos tempo de nos refazer das reflexões produzidas por isto, para nós, uma cena inusual, quando o general ele próprio fez a sua aparição, com a qual ficámos extremamente impressionados. Ele é uma figura notavelmente elegante, alto e erecto, com uma dignidade nativa sem afetação de maneiras. Tem para cima de 55 anos, a sua tez é demasiado clara para um português; de facto, soubemos depois que ele é de descendência flamenga. A personalidade deste oficial não contradiz a impressão favorável que a sua aparência é calculada a fazer. A sua reputação é a de um soldado bravo e honrado, e de um homem polido e altruísta. Pelo que todos dizem, no entanto, ele não é excluvivamente devedor destas suas boas qualidades, pela sua elevação de um baixa estação de vida. O Sr. Bland apresentou-se através do White, que atuou como intérprete, e, após alguma conversação, no qual apresentou os motivos da visita, aceitou um convite geral para jantar no dia seguinte, o general ao mesmo tempo da forma mais prestativa prometia os seus serviços.”  [p. 45-469].


[Montevideu 23 de Fevereiro de 1818, 15 horas]

Paolistas, Soldiers of the East Bank of the Plata
Emeric Essex Vidal - Picturesque illustrations of
Buenos Ayres and Monte Video (1820)

“Encontrámos um grande número de pessoas reunidas, todos eles oficiais portugueses de terra e mar, exceptuando um cavalheiro num fato de cidadão, que, fomos informados, era um agente de Buenos Aires, num qualquer negócio especial; ele parecia um homem inteligente e aguçado, e o seu fato preto simples formava um singular contraste com os esplêndidos uniformes, e cruzes, e medalhas dos oficiais portugueses. Os divertimentos foram os mais sumptuosos. Era, com efeito, um banquete, composto de tudo à laia de peixe, carne e caça, que possa ser imaginado, sendo seguido por toda a qualidade de frutas que tanto este mercado como o de Buenos Aires podem oferecer. Os nossos ouvidos eram ao mesmo tempo regalados com a mais doce música da banda do General. Muitos destes oficiais, particularmente os ajudantes do General, era notavelmente belos homens; Acontece que me sentei junto a um deles, com quem pude conversar bastante. Ele expressou grande admiração pelas nossas instituições políticas, e caráter nacional, parte das quais eu obviamente tomei como cumprimentos. Ele falou dos patriotas de Buenos Aires como um grupo faccioso, incapaz de estabelecer um governo sóbrio; os seus líderes todos corruptos, e desejosos apenas de adquirir uma pequena dose de auto importância; o povo ignorante, e à mercê de demagogos ambiciosos: ele contrastava o caráter deles com as virtudes e inteligência do povo dos Estados Unidos. Ele falou de Artigas, como um atroz selvagem, e declarou um acontecimento recente de tratamento cruel aos seus prisioneiros; que o seu povo era, como todos os selvagens, totalmente insensível aos sentimentos da humanidade. Ele falou de uma forma pouco elogiosos acerca dos ingleses, e manteve a ideia que algumas vãs tentativas haviam sido recentemente feitas da sua parte, para induzir o Rei de Portugal a retornar a Lisboa.” [p. 52-53].


(original pode ser lido aqui)



segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Apontamentos históricos a respeito dos movimentos e ataques das forças do comando do general Carlos Frederico Lecor, quando se occupou a Banda Oriental do rio da Prata desde 1816 até 1823


Apontamentos históricos a respeito dos movimentos e ataques das forças do comando do general Carlos Frederico Lecor, quando se occupou a Banda Oriental do rio da Prata desde 1816 até 1823 com que a Divisão dos Voluntários Reaes evacuou a praça de Montevidéu (Por uma testemunha ocular)

[As memórias de João da Cunha Lobo Barreto, que foi em tenente de caçadores na Divisão de Voluntários Reais.]


terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Revista das Tropas Destinadas a Montevidéu (1816)


J.B. Debret, “Revista das tropas destinadas a Montevidéu, na Praia Grande, 1816”,
óleo sobre cartão colado sobre tela, 41,6 X 62,9


Atribuído a Jean-Baptiste Debret (1768-1848), este óleo sobre o qual nos debruçamos, está na Pinacoteca Estadual de São Paulo, desde 2007, proveniente de doação pela Fundação Estudar. Chama-se “Revista das tropas destinadas a Montevidéu na Praia Grande”.

Num estilo documental, muito comum em Debret, é-nos dado assistir à revista da Divisão de Voluntários Reaes (DVR), efetuada na Praia Grande, próximo a São Domingos, no que é hoje Niterói, na baía de Guanabara, assistida pelo já rei, e aniversariante, D. João VI, a sua esposa, Rainha Carlota Joaquina e os seus dois filhos, o Príncipe Real D. Pedro e o Infante D. Miguel. Vemo-los no grupo central, com o Marechal General William Carr Beresford (1768-1854) (de cabeça descoberta e calvo), a explicar as manobras à família real. Da esquerda para a direita, após Beresford, temos D. Miguel, com 13 anos, D. Pedro, com 17, o rei D. João VI e a rainha D. Carlota Joaquina. Atrás do real grupo, um coche descoberto, apesar de ter uma lona para quebrar o sol, com várias senhoras reais, em luto pela recente morte da Rainha D. Maria.

Em baixo, à direita, um grupo de oficiais a cavalo, afastados  de família real, o Estado Maior da Divisão, contendo o comandante da DVR, tenente-general Carlos Frederico Lecor (1764-1836), e apesar de não poder confirmar com outros retratos existentes, decerto o Ajudante-General da DVR, marechal de campo Sebastião  Pinto de Araújo Correia, os dois comandantes de brigada, brigadeiros Jorge de Avillez (Zuzarte Ferreira de Sousa) (1785-1845) e Francisco Homem de Magalhães Quevedo Pizarro (1776-1819). Completando o grupo, estão os ajudantes de ordens destes oficiais generais.
O n.º 3 da DVR, Sebastião da Silveira Pinto (1780-1830), Quartel Mestre General, estava já na ilha de Santa Catarina, com a artilharia e a cavalaria, não estando decerto presente.

O traço de Jean Baptiste Debret imortalizou a revista de 13 de maio de 1816, dia do 49.º aniversário real e que foi um dos pontos altos da passagem da divisão pelo Rio de Janeiro. Podemos ver, em toda a tela, as unidades, fundamentalmente a infantaria da divisão, forte de 3600 homens, a desenvolver manobras. Do alto dos dois morros à esquerda, pode-se ver o fumo dos disparos, das várias unidades já lá presentes. Mais próximo, no canto inferior esquerdo, vemos um oficial superior (a cavalo) dando instruções a um oficial subalterno.

O dia foi, para todos os que assistiram, memorável, pela disciplina e ordem que os soldados portugueses demonstraram, a personificação do heroísmo da Guerra Peninsular à sua frente.
Três semanas depois, a divisão embarcaria para a ilha de Santa Catarina de onde efetuará as operações militares para a pacificação da Banda Oriental ou a Invasión Luso-Brasileña. Também Debret capturou para a posteridade esse momento a 7 de junho, e iremos decerto visitar essa obra no futuro.


Ligações

Óleo na Google Art Projecto (foto de Isabella Matheus) : ver
Pinacoteca Estadual de São Paulo: http://www.pinacoteca.org.br
Desfile de 18 de dezembro de 1815, em Lisboa, também para a despedida da Divisão, mas de Lisboa: http://lecor.blogspot.pt/2011/05/desfile-de-18-de-dezembro-de-1815.html