segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Bem vindo a Clio & Marte


A Clio & Marte é um espaço para coleccionadores e amantes de História militar, determinado na divulgação de peças históricas, como medalhas, emblemas, distintivos, livros que já não estão em circulação, com um forte interesse em Portugal e Brasil.  Clio, a musa grega da História, e Marte, o deus romano da guerra, simbolizam a junção divina que faz mexer o coleccionador de peças e a sua necessidade de explorar novas peças. Pela divulgação da Falerística, da História e ao serviço do colecionador.
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Clio & Mars is a place for collectors and military history enthusiasts, determined to show historical pieces such as decorations, medals, emblems, badges, books that are no longer in circulation, with a strong interest in Portugal and Brazil. Clio, the Greek muse of history, and Mars, the Roman god of war, symbolise the divine junction which moves the collectors and their need to explore new pieces.


Editor: Jorge Quinta-Nova [mail]
Historiador Militar e Local, baseado em Queluz, com especial interesse no Exército Português dos finais do Antigo Regime (1790-1830) e com um forte centro gravitacional no trabalho biográfico em torno do Marechal Lecor e dos seus irmãos. 
Formado em Línguas, a linguagem dos relatórios e outros documentos, mesmo familiares é também um fator determinante no gosto pela área. Estuda também a Falerística, a disciplina que estuda as ordens, condecorações e medalhas, assim como distintivos ou emblemas de honra, tentando contribuir há alguns anos para a divulgação das condecorações e ordens militares portuguesas, assim como particularmente para a tipificação dos modelos e cunhos da Medalha Militar (1863-1911) monárquica. Adicionalmente, trabalho sobre a Guerra da Sucessão Espanhola e a Campanha do Algarve, entre Junho e Julho de 1833, na Guerra Civil.

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domingo, 12 de agosto de 2018

Mouzinho de Albuquerque e a Ordem da Águia Vermelha



Mouzinho de Albuquerque e a Ordem da Águia Vermelha, da Prússia, 2.ª Classe com Espadas, que recebeu do imperador Guilherme II pelos seus feitos em Moçambique. Na foto, podemos ver a ordem ao pescoço.

"O Eduardo Pimenta, que serviu com o Mouzinho em África:
- Um orgulho desmedido, uma decisão rápida, e uma insensibilidade, como nunca vi, ao frio, à fome, ao trabalho... Duma vez, por qualquer questiúncula, fomos obrigados a dar uma satisfação à Alemanha. Que cena! O Mouzinho arancou do peito constelado todas as medalhas, todas as condecorações - todas. Só lá deixou a «Águia Vermelha» que obriga o alemão a conservar-se de pé diante dos que a têm. Pôs o boné às três pancadas e entrou por a casa do cônsul dentro. Ergueram-se todos - e ele, à porta, sacudido, impertinente, enorme, disse a frase protocolar: - O Governo de Sua Majestade Fidelíssima encarrega-me, etc. - E, sem esperar pela resposta, outra vez levou dois dedos ao boné e rodou sobre os calcanhares, deixando-os estupefactos."

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Plebeu Radical (Alexandre Herculano, 1862)

Pertenço pelo berço a uma classe obscura e modesta: quero morrer onde nasci. Há nisto uma grande ambição solapada. No imenso consumo que se está fazedo, que se tem feito há trinta anos, de distinções de fitas, de insígnias, de fardas bordadas, de títulos, de graduações, de tratamentos, de rótulos nobiliários, o homem do povo queira e possa morrer com esta classificação deve adquirir em menos de meio século extrema celebridade. No Baixo Império, quando a sociedade romana caia ao contacto com os bárbaros, esfacelada pela podridão interna, chegaram a nobilitar à força os cidadãos mais obscuros, arrolando-os nos colégios dos curiais. Esta boa terra promete que há-de chegar lá.
Não sou comendador da Torre e Espada.
El-Rei o Senhor D. Pedro V, que Deus tem consigo, procurou-se um dia para me pedir, dizia ele, um favor. Era o de aceitar a comenda da Torre e Espada. Recusei, e com a sinceridade que ele sempre encontrou em mim, expus-lhe amplamente os motivos da minha recusa. Aquele grande espírito, complexo de extrema doçura, de alta compreensão e de profundo sentir, debateu, sem se irritar, as ponderações, talvez demasiado rudes, que lhe fiz. Concluiu por me dizer que cada um de nós podia proceder naquele assunto em harmonia com as próprias convicções. Que ele cumpria o que reputava um dever de rei, e que fizesse eu o que a consciência me ditasse.
Como os outros homens, os reis, embora se chamem D. Pedro V, estão sujeitos a apreciarem mal as pessoas e as cousas. Nem eu valia o que ele supunha, nem a comenda valia nada.

Alexandre Herculano, extrato de carta ao Jornal do Commercio, 7 de Dezembro de 1862, publicado em Alexandre Herculano: Um homem e uma ideologia na construção de Portugal, Lisboa, Bertrand, 1978 - pp. 26-27.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Recompensas da Cruz Vermelha Portuguesa (1918)

Recompensas da Cruz Vermelha Portuguesa (1918), Decreto 4551, de 22 de junho de 1918 in: Diário do Governo, 8/7/1918

Às cores das fitas, corresponde o cor escura, o vermelho, e aclara, o branco.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Guerra Peninsular: Medalha de Alcantara, 1809


Medalha de ouro dada a alguns dos oficiais que participaram na batalha de Alcantara, em 14.5.1809. A da imagem, foi dada a William Mayne, então coronel no comando do 1.º batalhão da Leal Legião Lusitana, que comandou a forças portuguesas no recontro na ponte de Alcantara, próximo da fronteira. 


De acordo com Steward, a medalha tem cerca de 3,43 cm de diâmetro, encapsulada numa caixa de vidro com aro de ouro, suspensa de uma barra ondulada dourada de 4,32 cm por uma fita rosa-salmão de 3,81 cm de largo [em cima, a imagem da cor, referente a #FF91A4], com uma fivela dourada. 
O anverso tem gravado um braço e mão estendidos, com a palavra CUIDADO por baixo e um olho por cima, tudo rodeado por uma coroa de palmeira e figueira. O reverso tem inscrito em maiúsculas românicas AL MERITO, e por baixo “De la Junta de Gobierno y guerra de la Villa de Alcantara MDCCCIX." em quatro linhas. No bordo tem gravado o nome do recipiente, em espanhol: AL CORONEL MAYNE DE LA LEAL LEGION LUZITANA.


A imagem está na página 40 do livro "War medals and their history", de William Steward, publicado em 1915, e acessível na internet aqui.

Texto original (p.66): “Alcantara Medal.—For the battle of Alcantara a medal of gold was given to some of the officers, and Dr. Payne has in his collection one awarded to Brigadier-General William Mayne, K.T.S., late Colonel Loyal Lusitana Legion, which by his kindness I am able to illustrate. It is 1 7∕20 in. in diameter, enclosed in a gold-rimmed glass case, suspended from a gold-hinged waved bar 1 7∕10 in. long by a salmon-pink ribbon 1 ½ in. wide, with a gold buckle attached thereto. On the obverse is engraved an outstretched sleeved arm and hand, below is the word CUIDADO, and above an eye, the whole within a wreath of palm and olive. On the reverse is the inscription, in bold Roman capitals, AL MERITO, and underneath, in script, "De la Junta de Gobierno y guerra de la Villa de Alcantara MDCCCIX." On the rim the name of the recipient is engraved in Spanish: AL CORONEL MAYNE DE LA LEAL LEGION LUZITANA.”

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Medalha da Campanha do Uruguai (1811-12)


A Medalha da Campanha do Uruguai (1811-12). Esta é uma das mais interessantes e desconhecidas medalhas luso-brasileiras por diversas razões, e possivelmente a primeira condecoração do Brasil independente de 1822. 

Por decreto de 25 de Setembro de 1822, apenas duas semanas após a proclamação de independência, D. Pedro I autoriza que o emblema dado aos participantes da campanha do Uruguai de 1811/1812 (que os historiadores hispanófonos chamam a 1.ª Invasion Portuguesa) [Leia na Wikipedia acerca da 1.ª Campanha 'Cisplatina'] seja atualizado em medalha, com a adição de um cruz em torno do círculo original de 1813 e pendente de fita amarela. 

O emblema original
Na prática, devido ao pedido dos veteranos, o emblema que foi originalmente decretado pelo Príncipe Regente D. João a 20 de Janeiro de 1813 passa a poder ser utilizado como medalha pendente do peito. O decreto do emblema de 1813 é da Gazeta do Rio de Janeiro n.º 17, de 27.2.1813.



O emblema era usado no braço direito, dourado para os oficiais generais, de prata para oficiais e de estanho para os sargentos e praças do Exército Pacificador do Sul, comandado pelo Conde do Rio Pardo, D. Diogo de Sousa. Esta força chegou a ameaçar Montevideu, mas depois retirou, em função de um tratado com Buenos Aires.

A mais antiga medalha brasileira?
Tendo em conta a data do decreto de 1822, poderemos considerar esta a mais antiga medalha militar brasileira pós independência e, não só isso, a primeira condecoração honorífica brasileira em termos cronológicos, precedendo as várias ordens que são apenas legisladas a 1 de Dezembro de 1822.

Ainda que na prática seja apenas uma reforma legal, o tempo da sua criação coincide com as primeiras semanas da independência e uma forte aposta na valorização das forças imperiais brasileiras, agora mais que nunca dada a separação dos países.



A medalha que apresento em cima (reverso), e outra do seu anverso, no topo deste artigo, é da coleção Coleção Leone Ossovigi, do Museu Imperial de Petrópolis e pode ser vista no sítio do Museu.

Uso da medalha
Em seguida, dois grandes militares brasileiros que portam a medalha nos seus retratos, junto à medalha do Barão da Laguna, para as campanhas de 1811 a 1828. 

De notar que de acordo com a legislação da medalha Barão da Laguna, criada meses depois em 1823, o uso desta primeira, actualizada em 1822, seria desnecessário se o militar obtivesse a segunda. No entanto, ou a lei foi alterada, ou era aceite o uso das duas medalhas.

Em qualquer dos casos, faz sentido o uso das duas, na medida em que foram campanhas com implicações e condicionalismos bastante diferentes. Da mesma forma, representaram dois momentos militares na guarnição da província do Rio Grande.


José de Abreu
Usa a medalha do Uruguai, em prata, e a do Exército do Sul.



Sebastião Barreto Pereira Pinto: Usa a medalha do Uruguai, dourada (atualizada ao seu posto à altura do retrato), e a do Exército do Sul, assim como 3 placas de ordens imperiais brasileiras (Rosa, Cruzeiro e não identificada).

As condecorações brasileiras costumavam ter um tamanho reduzido, face à norma, o que fica aqui demonstrado.

Não me foi possível identificar se existem os exemplares originais em algum museu ou em coleção particular, nem tenho conhecimento de nenhuma outra fotografia desta condecoração.

Recentemente, deparei-me com esta fotografia a preto e branco de um outro modelo com coroa imperial, a par do emblema original de 1813. A letra vaga da legislação de 1822 permitiu decerto uma grande variação da peça, nomeadamente através de lojas privadas que efetuavam a sua produção própria.



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Bibliografia
- ESTRELA, Paulo Jorge, Ordens e Condecorações Portuguesas 1793-1824, Lisboa, Tribuna da História, 2008.
- DIÁRIO DO RIO DE JANEIRO

* Artigo originalmente publicado no Blogue Os Voluntários Reaes, aqui.