segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Clio & Marte


A Clio & Marte é um espaço para coleccionadores e amantes de História militar, determinado na divulgação de peças históricas, como medalhas, emblemas, distintivos, livros que já não estão em circulação, com um forte interesse em Portugal e Brasil.  Clio, a musa grega da História, e Marte, o deus romano da guerra, simbolizam a junção divina que faz mexer o coleccionador de peças e a sua necessidade de explorar novas peças. Pela divulgação da Falerística, da História e ao serviço do colecionador.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Transcripto: O Homem das Condecorações (Duque de Ávila e Bolama), por Julío de Sousa e Costa

 


XIV 
O HOMEM DAS CONDECORAÇÕES 
[transcrito da obra O Segrêdo de Dom Pedro V, de Júlio de Sousa e Costa]

Em Portugal todos os homens políticos são fortemente discutidos, tenham ou não merecimento. Há um prazer, sobretudo, quando eles se prestam à caricatura; e quando lhes escorrega um pé, então  temos o céu aberto!... A poesia toma conta de Sua Excelência, em várias medidas. . . quadras, quintilhas, sextilhas, rima ligeira, alexandrina, épica... 
Enfim todos os paladares apreciados no Parnaso, a não ser que a Censura disso a estorve e faça  calar o desabafo... 

António José de Ávila, um açoreano com vontade de ser gente, conseguiu entrar na Universidade de Coimbra, onde se bacharelou em Filosofia. Entrou na política... Tornou-se notado... foi deputado em 1834; Par do Reino; Ministro dos Estrangeiros, Justiça e Fazenda; Presidente do Conselho, Conselheiro de Estado efectivo, diplomata e tudo quanto de importante havia em cargos públicos. 
Foi Marquês, foi Duque, até que um gracioso escreveu esta bela produção (1). 

O HOMEM DA VILA... 

Sou filho dum sapateiro, 
lá da Ilha do Fatal, 
e muito grande luzeiro 
na terra de Portugal!. . . 

Neste pais eu sou tudo 
e em tudo eu ponho a marca! 
e gozo com este Entrudo !. . . 
só falta ser Patriarca !. . . 

Oh ! grã pátria de lapuzes 
e de grandes parvalhões, 
tenho sessenta grã-cruzes 
e mil condecorações !!! 

O facto de ser filho do sapateiro Manuel José de Ávila, não era motivo para depreciação. O Pai é que tinha motivo de sobejo para se orgulhar de possuir um filho com valor e merecimento; e a mãe, a senhora Prudência Joaquina, tinha basta razão quando dizia, alto e bom som: 

— Há de navegar bem!... 

De facto o Duque de Ávila navegou admiravelmente e foi quem marcou no seu tempo. A Pátria deve-lhe, entre outros relevantes serviços, a atitude enérgica contra a Inglaterra quando esta Nação  nos quis arrebatar Bolama, em 1865... Entre nós esquece-se todo aquele que presta serviços relevantes. Isto já vem do tempo de Dom Manuel I... 

Possuía comendas e grã-cruzes do mundo inteiro às quais êle ligava muita estima... Não as podia pôr todas... Para isso seria necessário vestir quatro fardas, ou quatro casacas, ao mesmo tempo... 

Essa funilaria, como disse o grande e inolvidável Camilo, tinha-a êle carinhosamente guardada em quatro caixas almofadadas, onde repousavam, em boa e santa camaradagem, o leão da Holanda, o elefante da Dinamarca; o falcão branco, de Saxe-Weimar; a águia branca, da Rússia; a águia vermelha, da Alemanha. Além desta bicharia, e a guardá-la, lá estavam santos: Santo André, da Rússia; Santo Olavo, da Noruega, os Serafins, da Suécia, etc. Também havia o crescente e a meia lua otomanas, cruzes, colares, placas de comendador, etc. Podia pôr uma loja... 

Dom Pedro V, que detestava os penduricalhos inúteis, como costumava dizer, somente usava, com desvanecimento, a medalha comemorativa da febre amarela, que lhe fora oferecida em 1859, pela Câmara Municipal de Lisboa, e o hábito da Torre e Espada. O soberano era parcimonioso na outorga  das condecorações e dizia com convicção: 

— Poucos, pouquíssimos, as merecem!... 

O Duque de Ávila e Bolama não as devia recusar, é certo, mas gostava delas... E não o largavam!... Em 1859 dispararam-lhe esta quadra que teve um grande sucesso: 

O sr. António da Vila, 
em política grão trombone, 
lá está na primeira fila 
e com a medalha Cadastrone! 

Se havia coisa que mais aborrecesse o célebre político era darem-lhe o apelido da Vila em lugar de Ávila. 

— E nós a julgarmos que ele era vilão!!! tornavam os contrários que não perdiam ocasião de o troçar... Mas é! É com certeza!... 

Como êle fizera um relatório sobre o Cadastro, e por sinal bem elaborado e indicador de providências úteis e altamente interessantes, alcunharam-no de Cadastrone, com o que êle, também, deveras embirrava ! . . . 

Em Maio de 185 7, sucedeu na pasta da Justiça ao 1.º Visconde do Freixo (Vicente Neto de Paiva), e em Março de 1858, na mesma Secretaria de Estado, sucedeu a José Silvestre Ribeiro... Os vates produziram nova versalhada que alguém meteu na caixa dos requerimentos que Dom Pedro V tinha mandado colocar no átrio do Paço das Necessidades. . . 

O António Zé da Vila, 
a inteligência castiça 
que tudo, tudo assimila, 
vai outra vez p'r'á Justiça !. . . 

O António Zé da Vila, 
de medalhas o chupão, 
põe as comendas em fila 
no brilhante fardálhão . . . 

O António Zé da Vila, 
que é amigo do Talone, 
para a comenda s'engrila. . . 
a comenda de Cambronnef. . . 

Não o largaram com chufas algumas bem injustas!... Mas se isto é já pecha portuguesa, não temos, portanto, muito que estranhar!... Há de haver fatalmente no Parnaso, além das nove musas, uma cidadã trocista que inspira a poética epigramática portuguesa.., Apolo, chefe daquela tropa, e, segundo Camões, dispensador de graças aos portugueses, não faltou, com certeza, com uma inspiradora à troça dos costumes lusitanos, o que já vem do tempo antigo das conquistas e navegações, como se vê da leitura dos cartapácios antigos. . . 

A sátira substituiu um pouco as arremetidzis de capa e espada, estas, às vezes, menos sangrentas que aquelas.

Poderam os inimigos do Duque de Ávila ter dito enormidades, injustiças e propalado versos; o que é facto, porém, é que o filho do humilde sapateiro da Ilha do Fayal não foi nulidade, como muitas que, depois, e até no seu tempo, foram elogiadas desmarcadamente ! Cometeu erros políticos, porém não tantos como os seus antagonistas; diligenciou acertar e prestou grandes serviços. Outros, com menos predicados, vemos exalçados, quando, afinal, não fizeram nem a décima parte do que ele fêz!... 

A História Política do nosso País foi sempre assim feita!... O homem das condecorações, como lhe chamavam, não cometeu indignidadesl. . . Serviu a sua gente, como êle dizia, cofiando as suíças; serviu a regedoria e distribuiu as postas para ter correligionários e amigos!... 

Não é, afina), o que faizem todos esses anjos dos grandes céus políticos da Europa, Ásia, África. Américais e Oceania? 

(1) António José de Ávila. Nasceu na Ilha do Faial, em 8 de Março de 1806, e faleceu em Lisboa, no dia 3 de Maio de 1881. Casou com D. Emília Hegnauer, austríaca.

* * *

Leia o livro na íntegra na Internet Archive [clique aqui para abrir nova janela]

Transcrito de
Júlio de Sousa e Costa, "XIV - O Homem das Condecorações" in: O segrêdo de Dom Pedro V (1837-1861), Romano Torres, Porto. pp. 148-153

Imagem
Retrato do Duque d’Ávila e Bolama - Miguel Ângelo Lupi, 1880 (Museu Nacional de Arte COntemporânea, Lisboa. Wikicommons: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Retrato_do_Duque_d%E2%80%99%C3%81vila_e_Bolama_-_Miguel_%C3%82ngelo_Lupi,_1880.png