sábado, 13 de junho de 2020

Transcrição: A génese da Ordem da Torre e Espada (1808)



A seguinte transcrição é de uma carta não data a e anónima, dirigida ao Príncipe Regente D. João. Apresenta uma proposta de criação de ordem civil, que vem a ser a Ordem da Torre e Espada, apresentando a Ordem da Espada, criada por D. Afonso V a usar.
Pelas pistas cronológicas encontradas no texto, a carta terá sido escrita em Salvador, nos inícios de 1808 quando D. João lá aportou após sair de Lisboa perante a ameaça francesa. O autor refere que só no Rio de Janeiro se deverá oficializar a Ordem, indiciando que a corte estava ainda em Salvador.
Apesar de não haver pistas quanto à autoria, gostaria de deixar aqui um forte candidato, D. António Araújo de Azevedo, não só por ascender ao governo nesta altura e às graças do príncipe, mas também por ser membro de uma organização europeia de cavaleiros de Ordens. Não sei se foi ele, mas é, sem dúvida, uma forte possibilidade.

«Crear huma Ordem nova fóra de occazião, sem haver para que não me atrevera a aconselhar a S. A. R. muito mais circunstâncias de mil embaraços em que se devem fazer grandes coizas, como já se tem feito algumas, mas somente as necessárias. Com tudo porem he precizo confeçar que logo que S. A. R. se visse precizado por huma total e indespençavel necessidade a condecorar algums Estrangeiro com esta qualidade de Merce, não podendo conferir-lhe nenhuma das 3 Ordens Militares establecidas, por ser de diferente comunhão, não haveria outro remedio se não o de instituir de novo huma Ordem civil. Ora para o fazer de proposito com o fim de premiar hum homem só, sêria precizo que este tivesse feito relevantes serviços. Era portanto para dezejar que o Comandante da unica Nau Ingleza que teve o feliz successo de nunca largar S. A. R. e que alias tem feito todo o possivel por lhe agradar, se contentasse com huma boa Joia, principalmente com o retrato do Principe, com que se costumão contentar os maiores Generaes.

Porem esta condescendencia não está na Mão de Sua Alteza Real. No cazo que não possa vencer-se sem grande desconsolação, supostas algumas antecendencias, ou mexericos, resta ver e pezar se convem descontentar este Official e aos mais da Marinha Ingleza por huma coiza que se poderá fazer mais pequena do que parece à primeira vista: e se o Coração de S. A. R. que se acha empenhado em fazer Mercê a este homem que salta de contente por levar huma distinção daquelle genero, e regeita tudo o mais, consentirá em que se uze com elle de hum rigor ou escrupulo demaziado. O qual talvez seja fóra de occazião o negar-se-lhe, e muito proprio conceder-se-lhe h'uma epoca tal, que obriga de necessidade a olhar muito para a sua e nossa Marinha.

Por ventura hade ser o Principe o unico Soberano que não póssa dár huma Ordem a quem muito quizer, não tendo nenhuma que dar a algumas Pessoas, como succede com este Comandante, que não tem a felicidade de ser Catholico Romano. E quantas occaziões destas aparecerão daqui por diante. Deve pois fazer como os mais Principes fazem, e constituir huma de novo, que seja apta para todos.

Hé por tanto de considerar como se hade instituir huma Ordem, que aproveite para o futuro, e que sirva para o cazo presente, sem parecer que se fez de proposito por amor de hum só homem, que não tem feito serviços para tanto, mas sim em favor da nossa Marinha em huma epoca em que a Marinha Portugueza talvez seja a mais util e necessaria do que serão as Tropas de terra. E que a primeira pedra sua creação seja lançada na Bahia, por ser a primeira terra do Brazil aonde S. A. R. aportou, considero muito a proposito.

Não importa, antes hé muito conveniente que se não complete esta obra desde logo, e que se vá aperfeiçoar ao Rio de Janeiro para não acuzar pressa e ligeireza. Basta que a data da sua creação seja da Bahia, e que se anuncie já qual hade ser a venera com a sua legenda e exergua: Se se podesse aqui fundir na caza da Moeda em tão poucos dias, sêria de estimar, quando não se aprezentando-se o desenho a S. A. R., e sendo por elle approvado, está feito tudo quanto hé necessario.

Para dar tom a esta Ordem, sem o qual não póde ter a estimação devida, seria precizo fazer logo hum General do Mar, com a Patente que tiverão o Senhor D. João e o Marquez de Angeja, assentando bem este grande Posto na Pessoa do Duque do Cadaval, principalmente nas actuaes circunstancias, e para o fim de se lhe conferir esta Ordem em primeiro lugar do que a todos. Segue-se depois o Vice Almirante, que teve a honra de acompanhar S. A. R.: o 3.º deve ser o Cappitão da unica Nau Ingleza que acompanhou S. A. R. a este Porto. No Rio de Janeiro se regulará dahi por diante tudo o mais que lhe pertencer.

Não pode haver coiza mais simples nem mais abreviada para não cauzar espanto, com tudo eu ainda insisto em que melhor sêria contentar o Inglez, se fosse possivel por bons modos, com o retrato de S. A. R.; principalmente achando votos contrarios negativos, que quazi sempre são os melhores e mais seguros. Não dezejo que se siga o meu conselho quando hé solitario.

Fundo-me porem em que todos os Principes tem Ordens para darem a Estrangeiros: Que o corpo da Marinha Portugueza, principal objeto desta Instituição, merece ser muito considerado. Que não só se deve ganhar o Governo de Inglaterra, mas as Pessoas que vierem ajudar-nos: Que o modo que tenho declarado, e porque entendo se deve isto fazer, não hé de muito aparato: E finalmente, que não hé a 1.ª Ordem Civil que se inventou neste Reybo, porque El Rey D. Affonso 5.º chegou a formalizar huma Ordem chamada da Espada, como se póde ver na Historia Geneologica de Souza, tomo 3.º, pag. 6.ª; cuja exergua se deve aproveitar agora por memoria antiga, suposto que não hé muito feliz, mas a repetição val nestes cazos.

E sobre tudo seguro-me mais em que me foi ordenado por S. A. R.; que visse se se podia descobrir algum caminho para o cazo que se propunha, e não achando outro de menos espinhos, satisfaço com apontar em duvida e com temor, aquelle que me lembra: fala o coração, e o dezejo de livrar a S. A. R. de hum embaraço que o aflige, e o entendimento suposto duvida, não repugna pelas razões que tenho declarado.»



Fonte
Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Manuscrito, II-31,03,002 - Manuscritos (cota: mss1289260)

A versão digitalizada do manuscrito pode ser vista em http://acervo.bndigital.bn.br/sophia/index.html .

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